4 de março de 2010
Por: Haroldo Lima


 

 

Diante do problema de expressivas sobras de vagas para o ingresso em universidades federais, o governo estuda fazer mudanças no processo seletivo que associa o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) ao Sistema de Seleção Unificada (SiSU), em vigor pela primeira vez no ano letivo de 2010.

 

Como a oferta de 47,9 mil oportunidades em 51 instituições federais que adotaram o novo modelo não foi totalmente preenchida em três etapas de inscrições, o Ministério da Educação (MEC) pretende excluir uma fase da seleção e antecipar a abertura de lista de espera para o segundo momento da disputa por um lugar no ensino superior em 2011. Preferindo não se identificar, especialista em educação que acompanha reuniões entre autoridades do MEC e reitores revelou ao Valor que o ministério não descarta impor limitações regionais no ato das inscrições, ou seja, candidatos do Sudeste não teriam acesso a 100% das vagas universitárias disponíveis no Norte e Nordeste, e vice-versa. Encontro programado para amanhã entre MEC e representantes das 51 universidades e institutos federais que adotaram o Enem como vestibular vai tratar da polêmica.

 

De acordo com informações do ministério, o “fenômeno” das sobras de vagas, apesar da forte demanda, é identificado apenas na segunda etapa de inscrições no SiSU, quando 550,9 mil candidatos que fizeram o Enem disputaram 29,2 mil posições, mas ainda assim o sistema registrou 45% de vagas remanescentes. Na primeira fase, esse índice superou os 60%. A terceira rodada de inscrições, encerrada à meia-noite de ontem, terá entre 280 mil e 300 mil concorrentes para 21,7 mi oportunidades, adiantou o MEC. A fonte ouvida pelo Valor aposta que as sobras deverão continuar em torno de 40%, fazendo com que cerca de 13 mil matrículas sejam feitas por candidatos na lista de espera.

 

“Consideramos que exista uma elite intelectual do ensino médio, formada por 25 mil, 30 mil alunos. Esses têm ótimo aproveitamento em qualquer vestibular, Enem, Fuvest, nas principais universidades. Eles se inscrevem no SiSU, mas acabam se matriculando em outras instituições. Essa é a explicação para as sobras da primeira etapa”, explicou uma fonte do MEC. “O fenômeno se deu na segunda fase, quando muitos candidatos se inscreveram sem a intenção de se matricular, seja por status, para agregar no currículo ou até por brincadeira. Um estudo de mobilidade, que ainda está sendo analisado e vai ajudar na tomada de decisão, mostra candidato do Rio de Janeiro se inscrevendo na Federal do Vale do São Francisco. Ele não tinha nota de corte no Rio, mas tinha em Petrolina, o que não quer dizer que ele vai sair do Leblon para se matricular lá.” Pelo menos 10 mil casos semelhantes foram identificados no estudo do ministério.

 

Valmar Corrêa de Andrade, reitor da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), argumenta que não há vagas ociosas e defende o modelo de vestibular via Enem. “Estamos no meio de um processo e a lista de espera faz parte dele. Não haverá sobra de vagas, porque todos os classificados vão se matricular. O Enem é o sistema mais justo e correto”, reitera. A UFRPE entrou na segunda fase de inscrições do SiSU com 30% de sobras sobre as 2.100 vagas oferecidas para 2010. “A Rural está satisfeita, os candidatos vão entrar devidamente pela listagem”, insistiu Andrade, que esteve em Brasília ontem para reunião no MEC. “[O processo seletivo Enem/SiSU] Vai sofrer pequenos ajustes, mas caberá à Secretaria de Ensino Superior do MEC fazer a avaliação e decidir.”

 

Para o analista de educação consultado pelo Valor, as sobras no nível de 40% preocupam, uma vez que os vestibulares tradicionais têm percentual médio de vagas na lista de espera em torno de 4% a 5% para cursos bastante procurados, como medicina e direito, e 10% para programas de licenciatura. “Sabemos que o Enem ajuda a promover o fim da exclusão do acesso ao ensino superior e melhorar a qualidade do médio, mas da maneira como está sendo colocado vai contra a política de interiorização das universidades, que deveria valorizar as vagas regionais, por isso o MEC vai ouvir os reitores e deverá adotar limitações.”

 

Fonte: Valor Econômico

 

 

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