8 de março de 2013
Por: Haroldo Lima


Leia a homenagem da Seção Ifes às servidoras do Instituto neste 8 de Março – Dia Internacional de Luta das Mulheres.

Faz tempo que o ensino técnico-profissionalizante deixou de ser coisa de menino. Em funções administrativas ou na docência, as mulheres vêm ocupando mais espaços no Instituto enquanto o número de estudantes do sexo feminino aumenta anualmente. Mas elas ainda estão longe de considerar isso uma vitória. Práticas machistas ainda são reproduzidas nos campi de Norte a Sul do Estado e são poucas as mulheres que ocupam cargos políticos. Nas últimas eleições para reitor e diretor de campus, por exemplo, poucas mulheres estiveram na disputa.

A Seção Ifes não pretende lançar um manifesto neste Dia Internacional de Luta das Mulheres com os perfis que você vai ler nas próximas linhas, apesar do ponto de vista crítico de personagens a respeito de algumas questões do dia a dia da Instituição. Longe disso, buscamos aqui mostrar histórias de empoderamento feminino e protagonismo nos espaços de construção do Ifes e conquistas pessoais. Força revigorante, resistência e delicadeza.

Você vai conhecer um pouco das histórias de Camilla Pestana (São Mateus), Waleska Regis Duarte (aposentada em Vitória) e de Edy Maria de Almeida (Vitória) são personagens bonitas e comuns como milhões de outras brasileiras. Mas são únicas como mulheres. Por isso mesmo, eternas.

Camilla Pestana

“não há espaço para discutir a condição da mulher no ensino técnico”

“Eu não sou feminista”. Camilla Pestana, 26, não hesitou em negar minha pergunta sobre seu papel na luta contra o machismo e as opressões sofridas, historicamente, pelas mulheres historicamente. Embora não se declare feminista por não se enxergar como uma militante aos moldes clássicos, a servidora pensa e age de forma a denunciar essas opressões. E resiste.

Camila, em dezembro de 2012. Foto de arquivo.

Nascida e criada em São Mateus, caçula em uma casa de três filhos e independente financeiramente desde os 19 anos, a auxiliar de enfermagem do Campus do Ifes mais ao norte do Estado iniciou um trabalho de mudança de mentalidade no Instituto, que considera ainda muito machista, e se reafirma como mulher neste Dia Internacional de Luta das Mulheres.

Camilla coordena a Assistência ao Educando no Campus São Mateus e é uma das vozes que vê a necessidade de mudar práticas no Ifes, tanto na gerência do Instituto quanto no currículo.

“Não há espaços para discutir o papel da mulher no ensino técnico, apesar de percebermos essa necessidade cotidianamente, tanto entre servidoras, porque a instituição é coordenada majoritariamente por homens que têm uma mentalidade antiga sobre gestão, como entre as estudantes que chegam aqui cercadas por um machismo auto-imposto, assustadas com o curso de mecânica, por exemplo, e a predominância masculina.”

De acordo com Pestana, as condições de trabalho não favorecem a desmistificação do ensino técnico como uma coisa de homem. “Muito pelo contrário, a rotina de aula, a ideia de que os estudantes têm que dar conta primeiro das matérias e das questões científicas é prioritária. Não se discute gênero e precisamos avançar.”

Apesar de discutir informalmente a questão com outras servidoras, ainda assim “há uma sensação de conquista.”

“Quando penso na enfermagem, que é a carreira que escolhi, vejo o protagonismo feminino, das freiras às prostitutas, escrever a história. Temos espaço.”

 

Waleska Regis Duarte

“se a mulher tem vontade e condições de fazer, é um luxo que ela deve se dar’

Quem pensa que a aposentadoria é o tempo do “à toa” não conhece Waleska Regis Duarte, 64. “Eu me aposentei para ver minhas filhas crescerem, foi uma plenitude”. Após construir uma carreira que começou aos 17 anos em sala de aula ao se formar em Letras Inglês na Ufes Ufes, aos 42 anos a ex-professora do Campus Vitória aposentou-se e iniciou um novo ciclo em que ser mãe tornou-se a grande realização.

Londres – uma das muitas viagens feitas por Waleska após se aposentar – Foto de arquivo.

Duarte trocou a loucura dos primeiros anos com as filhas, quando ainda tinha 40 horas semanais para cumprir na escola e fazia questão de ser mãe por completo por uma rotina mais tranquila, em que vê-las crescer tornou-se prioridade.

“Depois que elas cresceram, voltei à profissão de forma mais leve e investi no meu bem estar bem-estar. Viajei e viajo bastante, me dei o direito de aprender coisas novas, fui da mecânica à eletrônica dando aulas no Senai. Poderia ter me formado em Direito com a minha primeira filha; na verdade, poderia ter colado grau com as duas, mas enchi os dias com outras atividades. Tive prazer em tudo que fiz.”

Waleska não se arrepende de ter interrompido a carreira. Segundo ela, a decisão não foi imposta pelo marido, foi uma prioridade em sua vida. “Abri mão de muitas coisas para investir nesse lado. Se a mulher tem vontade e condições de fazer, é um luxo que ela deve se dar”.

Hoje, aos 64 anos e solteira, a aposentada confecciona caixas artesanais em MDF, exercita-se e busca contentamento entre amigas, seja na ginástica ou nos bares que frequenta para ouvir boa música, provar quitutes ou só para colocar a conversa em dia.

“Tenho uma relação muito próxima com minhas filhas ainda que eu seja completamente independente. Dirijo, faço o que for preciso para não me estagnar.

Adepta às novas tecnologias, a aposentada não dispensa o smart-phone nas horas de lazer e também no trabalho. Faz política nas redes sociais, além de falar com os próximos e procurar amigos distantes.

“Aprendo tudo o que for preciso. Acho fantástico poder compartilhar com as pessoas o momento que estou vivendo, seja numa viagem ou quando saio de casa. Tiro uma foto e posto, vou escrevendo minha história.”

 

Edy Maria de Almeida

“nunca nos omitimos, mesmo frente à questões polêmicas, mas, se vencer o que contestamos, agiremos com profissionalismo e competência, independente de pensarmos diferente”

Edy, 63, é uma servidora difícil de adjetivar. Usaria “graciosa” se tivesse que escolher apenas uma palavra para escoltá-la. Querida no Campus Vitória, a professora é conhecida por sua resistência nos espaços de disputa política do Ifes, por seu incansável senso de justiça e também pelo comando competente da Coordenadoria de Química e Biologia, reconhecido bienalmente pelos colegas que não pensam duas vezes antes de indicá-la para permanecer no posto.

Edy (de blusa branca, no centro), com a equipe da Coordenadoria de Química e Biologia, em Julho de 2008. Foto de arquivo.

Mas por trás da profissional de postura exemplar, esconde-se uma mulher que viveu a vida deliciosamente, apesar das provações impostas a todos nós pelo destino.

“Eu amadureci cedo demais pela força das circunstâncias. Quando minha mãe teve o câncer, tive que assumir bastante a tutela da minha irmã mais nova que, aos 14 anos, naturalmente se revoltou. Eu me encostei na parede da casa dos meus pais e senti o chão faltar quando me contaram”.

Edy perdeu a mãe logo ao entrar na faculdade, vitimada por um câncer de mama. Mas, segundo ela, apesar do baque, foi a perda do pai já velhinho que a fez se sentir órfã de verdade. “Tinha uma preocupação muito grande de não proporcionar ao meu pai algumas felicidades, porque ele assumiu o lugar da minha mãe, dedicando-se a nós. Quis muito que ele conhecesse e aproveitasse a presença dos netos e isso aconteceu.”

Com a maternidade e já calejada pela docência, Edy afastou-se da profissão para cuidar dos dois meninos e da menina que teve com o primeiro marido. “Sou mãe coruja, protetora, que deu chineladas quando foi preciso.” Após a separação, reconstruiu a carreira como docente.

“Quando assumi, a Coordenadoria de Química e Biologia não estava bem das pernas. Vínhamos de uma coordenação desastrosa. Trabalhamos duro para organizá-la e, ainda hoje trabalhamos para manter nossa coordenadoria unida e harmoniosa, coisa rara no IFES. Nunca nos omitimos, mesmo frente à questões polêmicas mas, se vencer o que contestamos, agiremos com profissionalismo e eficiência, independente de pensarmos diferente”.

A professora de Biologia considera que há uma queda na qualidade do ensino, percebida pelos servidores em geral. “Há um esvaziamento de valores pessoais e de conhecimentos sólidos. O ensino tem deixado a desejar pelo excesso de facilidades oferecido por quem não vive o cotidiano de uma sala de aula e é responsabilidade dos servidores questionar esse fato. Infelizmente, nos meios acadêmicos, observa-se uma mentalidade viciada por práticas incompatíveis com a criticidade necessária aos profissionais do ensino, fazendo com que muitos prefiram ignorar essa realidade do que expor suas opiniões discordantes.”

Com mais um tempo de carreira pela frente e saúde para os próximos anos, Edy “se expõe” de segunda a sexta-feira na Coordenadoria de Química e Biologia do Campus Vitória, onde deve ser eternizada, como a maioria das mulheres, queiram ou não queiram.

Haroldo Lima

A Seção Ifes agradece fortemente às três personagens desta homenagem pela paciência e boa vontade. Obrigado.

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