24 de abril de 2014
Por: Comunicação


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O Sinasefe Ifes apóia integralmente a luta por cidadania plena, justiça social e respeito aos direitos humanos com o fim do Estado de Violência a que estamos sujeitos como cidadão diariamente. Abaixo, segue a Carta de São Pedro, um manifesto emocionante e um pedido de paz. A carta é subscrita por várias entidades e o Sinasefe Ifes assina e assume a manifestação. Convidamos você a ler, refletir e compartilhar.

Carta de São Pedro

Consternados ante a barbárie da violência que assola o Estado do Espírito Santo e que já dizimou mais de 15 mil vidas nos últimos 10 anos; Indignados com a histórica omissão do Poder Público em priorizar o enfretamento, real e verdadeiro, das principais causas da violência; Perplexos pelo silêncio, quando não cumplicidade, de diversos setores da sociedade capixaba diante do indiscutível agravamento da violência; Solidários com a dor de milhares de vítimas da violência, esquecidos e transformados em números das estatísticas oficiais; Movidos pela certeza de que toda e qualquer transformação social está nas mãos do povo, de quem emana todo o poder;

Nós, povo capixaba, defensores dos direitos humanos, comprometidos com os que mais sofrem, nos reunimos no bairro São Pedro, periferia da cidade de Vitória, para denunciar e dizer BASTA a violência latente em nosso estado, que tem ceifado vidas de nossos jovens, sobretudo negros e da periferia, de nossas mulheres e crianças.

A realidade do estado do Espírito Santo é triste, lamentável e indigerível. Dia após dia, as mortes sangram pelas ruas dos morros, a pele negra queima no asfalto, nas pedras e escorrem pelas ladeiras. Não há uma causa específica, a desordem é geral. São ausências de políticas públicas, é a imensa desigualdade social, é a violência institucional, é a cultura machista, homofóbica e racista, o controle da mídia concentrado nas mãos de poucos e fomentando uma cultura do medo e da violência contra negros; jovens de periferia e mulheres, o monopólio das grandes empresas, é a polícia desestruturada e despreparada; militarizada e treinada num regime ditatorial, é o crime, é a falta de oportunidade somada ao sonho de uma vida melhor. São dores de uma infância abandonada, de uma adolescência perdida, de pais que nunca conheceram e de famílias que nunca tiveram, consequências de um estado omisso e sem compromisso com seu povo.

Não é mais possível viver sem notar, passar sem reparar, andar sem tropeçar. A indiferença nos incomoda, a omissão nos indigna e o conformismo nos provocam. Provoca-nos a lutar contra todas as formas bárbaras e truculentas com que são tratadas nosso povo pobre e sofrido, mas também porque acreditamos que há uma responsabilidade conjunta de todos os setores que compõe a sociedade na busca implacável pela sobrevivência e vida digna.

O espancamento e tortura seguida de morte do jovem Alailton Ferreira, de 17 anos, ocorrida na Serra, no dia 06 abril, nos causaram dores, mais fortes do que imaginávamos suportar. Acusado injustamente de estupro, foi vítima da população que faz a justiça com as próprias mãos. Adolescente, negro e pobre, Alailton tinha sonhos, tinha esperanças, tinha uma vida inteira pela frente, e tudo lhe foi arrancado, por causa dos desejos desumanos e vingativos daqueles que o julgaram, sem ao menos lhe dar a oportunidade de se defender ou reagir.

Em menos de uma semana, dia 12 de abril, mais um jovem é morto, desta vez na comunidade de São Pedro, enquanto as comunidades religiosas realizavam a procissão pelas ruas do bairro, mais um corpo era estendido no chão. Não, não era um corpo. Ele se chamava Sérgio, era um jovem negro, de 25 anos, cheio de vida e sonhos, que trabalha como ajudante de pedreiro, ajudando sua família, que sem oportunidades e um contexto de violência, vitimou-se nele.

Este fato ocorreu num domingo, considerado domingo de ramos pelo calendário litúrgico Cristão, que traz a lembrança da entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, o verbo encarnado que se fez homem para nos ensinar a viver o amor em sua plenitude, a nos compadecermos com o sofrimento do próximo, a nos doarmos em favor dos fracos e oprimidos.

Compartilhamos a dor das famílias e da comunidade. Solidarizamos-nos com a atitude do padre Kelder, que extravasou o seu amor, a sua compaixão, o seu compromisso ético cristão com os oprimidos, rompendo com o silêncio da indiferença e realizando ao redor do corpo de Sérgio uma missa que diante de um corpo morto pedia pela ressurreição de nossa esperança e crença no próximo.

Não dá mais para permanecermos impassíveis esperando a próxima tragédia. Essa causa não é e não pode ser apenas das mães que choram por seus filhos. Não pode ser apenas plataforma eleitoral de quem quer se beneficiar da comoção coletiva e se intitular salvador da pátria com soluções mágicas e propostas demagógicas! Essa causa é de todos nós! É a causa de quem sente a dor do próximo. É a causa de quem se vê como cidadão e parte de uma sociedade que não pode continuar partida! A causa da paz e da vida deve ser causa de quem acredita que este Estado possa ser ESPÍRITO SANTO!

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