9 de junho de 2020
Por: Comunicação


Em entrevista ao Sinasefe Ifes, o professor doutor Ivan Almeida Rozario Júnior, docente do Campus Piúma e atual presidente do Fórum dos Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (Foneabi) do Ifes, aborda o racismo estrutural brasileiro, entre outras questões

Os movimentos que tomaram as ruas de cidades no mundo inteiro, nas últimas duas semanas, já entraram para a história e marcam uma reação ao racismo que se apresenta de diversas formas nos mais diferentes países. O estopim para a revolta foi a morte por sufocamento de George Floyd, na cidade de Minneapolis, nos Estados Unidos, assassinado por um policial branco diante das câmeras.

No Brasil, a recorrente e naturalizada violência policial, do Estado e de agentes privados, contra a população negra engrossou a revolta. Somou-se a isso a escalada antidemocrática do Governo Federal com ares fascistas e a avalanche de mortes causadas pela pandemia da COVID-19, que mata muito mais as pessoas negras do que as brancas, já que são mais vulneráveis econômica e socialmente, sem as condições adequadas para se proteger da doença. As mortes, que em grande parte poderiam ser evitadas com medidas de proteção à vida, expõem mais uma vez o racismo estrutural brasileiro que promove o genocídio das mulheres negras e dos homens negros do país.

Na entrevista a seguir, o Sinasefe Seção Ifes promove um exercício de reflexão com o professor doutor Ivan Almeida Rozario Júnior, docente do campus Piúma do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) e atual presidente do Fórum dos Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (Foneabi) do Instituto. Ele aborda questões como o racismo estrutural brasileiro, a explosão das manifestações nas ruas, movimentos antirracistas, antifascistas e as alianças possíveis na luta por justiça social para a população negra.

Confira!

Sinasefe Seção Ifes – Qual a sua avaliação, mesmo que inicial, da “explosão” das ruas (mesmo na pandemia) e de apoio aos movimentos antirracistas no Brasil como reação ao movimento dos Estados Unidos e a casos mais recentes de violência policial racista no Brasil?

Ivan Almeida Rozario Júnior  – Em meio a uma pandemia, a OMS (Organização Mundial de Saúde) aponta como atitude mais prudente o cumprimento do isolamento social visando à redução do contágio e dos óbitos decorrentes do Covid-19. Entretanto, diante das condições sociais e econômicas de grupos historicamente invisibilizados e marginalizados, constata-se um profundo abismo engendrado pelas desigualdades sociais ainda latentes no século XXI. Os protestos que ocorrem nos Estados Unidos, reunindo negros e não negros, após o assassinato de George Floyd por um agente público da polícia, são reações pujantes contra um sistema perverso que desumaniza e aniquila os corpos negros, cuja raiz está fincada no racismo estrutural. No Brasil, a mobilização popular de grupos sociais e do movimento negro na luta antirracista busca denunciar a natureza desse racismo estrutural que, sendo institucionalizado, configura-se um processo em que condições sociais e históricas, que envolvem economia, culminam na violência policial. Nessa perspectiva, as manifestações contra o racismo nos Estados Unidos e no Brasil revelam as similitudes de uma violência social manifestada por atos truculentos de quem, por excelência, devia cuidar – e não matar, dos corpos em condições de vulnerabilidade social e econômica. Constata-se, então, a necropolítica – conceito cunhado por Achille Mbembe, operacionalizada pelo Estado que, por meio de uma política da morte, impele uma soberania ancorada no poder e na capacidade de ditar quem pode viver e quem deve morrer; dessa forma, conforme dito pelo filósofo camaronês, a soberania [do Estado] é a capacidade de definir quem importa e quem não importa, quem é descartável e quem não é. As mortes de João Pedro (14 anos), de Ágatha Félix (8 anos), de Kauê Ribeiro (12 anos) e de Kauan Rosário (11 anos), dentre outros jovens negros mortos a cada vinte e três minutos no país, escancaram o genocídio do negro brasileiro, já apontado por Abdias Nascimento, e, consequentemente, desvela a legitimação da política da morte pelo Estado que nega a humanidade dos corpos negros e naturaliza a violência contra eles.

E como você vê a convergência, no Brasil, com os movimentos antifascistas e em defesa da democracia que reagem à violência policial e à escalada autoritária do Governo Bolsonaro?

É salutar dizer que não podemos confundir ou equiparar a reação do oprimido com a violência impetrada pelo opressor. Mesmo vivendo em um Estado Democrático de Direito, constatamos, no Brasil, uma democracia ainda muito vulnerável – saímos de uma ditadura há pouco mais de 30 anos. A nossa sociedade brasileira, conforme dito pelo Prof. Silvio Almeida, ainda é pouco democrática, ela é autoritária, desigual, dependente economicamente. A polícia no Brasil carrega práticas militarizadas, evidenciando uma força armada e mostrando as pouquíssimas ações ostensivas que podem fortalecer o diálogo com a sociedade e garantir um atendimento preventivo. Nessa linha de pensamento, a chamada “Guerra às Drogas” evidencia as marcas do racismo institucional, devido às frequentes ações contra pessoas pobres e negras, nas periferias das cidades brasileiras, ou seja, essa guerra tem classe e raça definidas pela estrutura do Estado. Considerando a conjuntura desenhada pelo atual governo, infelizmente, torna-se difícil descortinar um cenário de fortalecimento da democracia no país, haja vista a produção exorbitante de notícias falsas (“fake news”) pelos próprios componentes do governo, sem contar as disputas de narrativas que inviabilizam um comportamento mais civilizatório entre os sujeitos sociais, evidenciando uma sociedade ainda polarizada e inflamada, a partir de grupos reacionários, pelo discurso do ódio.

Esses movimentos se organizam em rede e atuam de maneira híbrida nas arenas das redes sociais e das ruas. Quais desafios estão postos, considerando essa característica? Há um confronto entre “puristas” e os que entendem como positivo trazer todos que queiram se aliar. Como você vê isso?

As redes sociais têm um poder muito forte em relação à mobilização das massas, no entanto, esse poder quando mal canalizado pode causar efeitos danosos à garantia da democracia. Alguns grupos nazifascistas buscam justificar os seus atos dentro da prerrogativa de liberdade de expressão, entretanto, quando esses atos violam a dignidade da pessoa humana, a partir de discursos de ódio, constatamos que existem certos limites civilizatórios. Toda manifestação pública é legítima, enquanto direito constituído presente na Constituição Federal de 1988, mas cabe ao povo brasileiro entender as pautas que sedimentam as suas lutas políticas e sociais. Dessa forma, mais do que lutar, é importante saber sobre o que se luta, qual é a razão dessa luta e aonde se quer chegar com essa luta.

Quais ações são articuladas pelo Fórum dos Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (Foneabi) relacionadas aos últimos acontecimentos?

Vale ressaltar, antes de qualquer coisa, que o Fórum dos Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (Foneabi), criado em 2018 e previsto no Regimento Geral do Ifes, é um órgão colegiado de assessoramento de caráter especializado e consultivo, visando auxiliar na implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Africana, Afro-Brasileira e Indígena. Nessa perspectiva, podemos afirmar que o Foneabi – que tem representatividade de todos os Neabis dos campi do Ifes, busca fomentar ações que fortaleçam o debate acerca das relações étnico-raciais – por meio da leitura e do estudo de obras de intelectuais negrxs, brasileirxs e estrangeirxs, o reconhecimento e a valorização da pluralidade cultural – refletindo sobre a história de luta e de resistência dos povos originários e das comunidades quilombolas, bem como o desenvolvimento de ações e campanhas de sensibilização e conscientização crítica para o combate ao racismo estrutural a partir de práticas pedagógicas antirracistas.

Como as entidades que tradicionalmente estão nas ruas e se enquadram como movimentos sociais historicamente construídos no Brasil (sindicatos, por exemplo) entram nesse cenário? Como podem contribuir?

O Fórum dos Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (Foneabi) tem como objetivo, dentre outros, fomentar a interlocução com os movimentos sociais e os movimentos estudantis (centros acadêmicos, grêmios estudantis, coletivos), consequentemente, a rede de diálogos com esses grupos se expande e contribui no processo de fortalecimento da política da educação para as relações étnico-raciais. Indubitavelmente, entendemos que um trabalho coletivo e colaborativo, constituído democrática e participativamente entre todos, com todos e para todos, seja capaz de garantir um processo educativo pautado no respeito à diversidade étnico-racial e que promova uma educação antirracista e mais humanizadora.

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