28 de agosto de 2020
Por: Comunicação


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Grupo realizou ato na segunda-feira, 24, no Centro da cidade

A fim de levantar a discussão sobre a violência de gênero em São Mateus, Norte do Estado, o Coletivo Belas, formado por mulheres do município, realizou um ato na segunda-feira, 24, em frente a uma agência bancária no Centro da cidade. Cartazes pediam o fim da cultura do estupro e destacavam a importância de denunciar os casos de violência ao disque 100. 

O movimento foi articulado em meio ao caso da menina de 10 anos que foi estuprada pelo tio e engravidou, precisando ser submetida a um aborto autorizado pela Justiça. O caso ganhou repercussão nacional por conta de movimentos conservadores que pediam que a criança mantivesse a gestação. A menina é da cidade de São Mateus. 

Além da violência física, a menina e a família sofreram a violência psicológica, pelos movimentos de direita ligados ao presidente Jair Bolsonaro. A militante de extrema direita Sara Giromini chegou a divulgar o nome e o hospital em que a criança faria o aborto, ferindo o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e violando ainda mais a menina, que teve que ir a outro estado realizar o procedimento, diante da falta de protocolo no Hospital Universitário Cassiano Antonio Moraes (Hucam), ligado à Ufes. O aborto foi realizado no Centro Integrado Amaury de Medeiros da Universidade de Pernambuco (Cisam/UPE), em Recife. 

O Coletivo é formado por mulheres do município de São Mateus e tem como pauta a luta pelos direitos das mulheres e crianças. Conforme Márcia Rezende, professora do Ifes de São Mateus, membro do Coletivo Belas e diretora do Núcleo de Gênero e Sexualidade do Ifes, nenhuma mulher está isenta da violência de gênero, seja na infância, adolescência, vida adulta ou velhice. Rezende é filiada ao Sinasefe Ifes.

A professora do Ifes de Montanha Patricia Andrade, filiada ao Sinasefe Ifes e membro do Coletivo Belas ressalta que o grupo já vem se organizando na cidade. “Esse coletivo já vem se organizando nesse tipo de manifestação, e dessa vez foi para dialogar com o caso da menina, da violência na cidade. Não é um caso isolado (da menina), mas a expressão da cultura machista”, contextualiza. 

O grupo preparou uma instalação em frente a uma agência bancária, e colocou cartazes pedindo o fim da cultura do estupro, brinquedos remetendo à infância, e cartazes com o “disque 100”, o canal de denúncias de violações de direitos humanos. 

O Coletivo preparou a instalação para ficar o dia inteiro, conforme explica Andrade, mas a gerência da agência retirou as peças que estavam encostadas em um corrimão de acesso ao banco. A instalação teve que ser montada novamente, sem encostar no prédio.

“É uma espécie de resistência e resposta a violência contra as mulheres. É uma necessidade, um imperativo, o conjunto da sociedade luta contra a violência, contra as diversas formas de opressão que atingem as minorias, como as mulheres, negros, e que não podemos silenciar”, analisa Andrade sobre o ato que durou o dia inteiro.

Rezende ressalta que o caso da menina de 10 anos não é uma situação isolada no município. “Tem garotas, de menos de 14 anos, dando a luz em São Mateus e que sequer constam como estupro nos documentos públicos.Como assim? Está na Lei, não é uma questão que deve ser judicializada para ser obedecida. Se uma criança entra no serviço público para dar a luz, isso é estupro, independente de qualquer  coisa, porque ela tem menos de 14 anos, ela não é responsável pelos seus atos”, destaca Rezende sobre a situação que ela considera “preocupante”. 

“A mulher não é vista na nossa sociedade como um sujeito de direitos, deveres, desejo – não só no sentido de desejar, mas também de não desejar. Não é vista como um sujeito, e é por isso que você pode fazer uso do corpo dela, e isso o que chamamos de cultura do estupro. Quando o caso (da menina) explodiu o coletivo ficou muito preocupado. Tem muitos casos que não têm toda essa repercussão”, finaliza Rezende.

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