22 de dezembro de 2022
Por: Comunicação


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Material é de autoria do diretor do Sinasefe Ifes e pedagogo do Ifes campus Vitória Marcus Vinícius Cardoso Podestá; confira

Nem tão contidos que não possamos comemorar, nem tão alegres que possamos dispersar: alguns elementos de análise da conjuntura pós-bolsonaro e tarefa sindical

Em um esforço de síntese para descrever este último período turbulento de nossa história diríamos que o ódio, a intolerância e o conservadorismo se constituíram como elementos estruturantes de um projeto de poder do governo Bolsonaro. O conservadorismo como pauta política para conservar o que há de pior na sociedade brasileira e como tentativa de forjar uma unidade identitária nacional falsificada, porque avessa a toda diversidade que a ideia de ser brasileiro representa de fato.

E o ódio como elemento de controle e poder de mobilização do projeto para nos dividir, para autorizar a violência física e simbólica para com os que divergem, para a intimidação e eliminação dos que pensam diferente. Para nos resumir tão pobremente entre petistas e bolsonaristas, patriotas e comunistas, cristãos e satanistas, entre os que defendem o bem e os que defendem o mal.

Nunca imaginamos ver, como vimos nos últimos anos, a intolerância se manifestando tão aberta e violentamente, e, por mais pessimistas que fossemos, nunca imaginamos que teríamos que, a essa altura, debater em público sobre coisas tão elementares como a eficácia das vacinas, o formato da terra e o consenso sobre o valor da democracia, que, mesmo com as suas contradições, é nossa única alternativa.

É preciso considerar que, mesmo que um possível desgaste da figura de Bolsonaro venha se apresentando em um momento pós-eleição, a extrema direita se consolidou como alternativa política no Brasil, com representatividade dentro e fora do congresso. Essa constatação exige de nós a compreensão de que a luta política dos próximos anos está em outro patamar de complexidade em relação a todos os enfrentamentos que fizemos dentre governos e conjunturas no perído democrático.

Por isso precisamos defender o resultado das urnas, fazer a disputa política de um governo que será muito complexo pela amplitude das alianças que o contexto exigiu, mas, ao mesmo tempo, nos distinguindo de modo claro da perspectiva fascista que contaminou infelizmente muito dos nossos servidores. Precisaremos fazer a crítica ao governo Lula como sindicato independente e forjado na luta da classe trabalhadora, para que possamos recompor as mais duras perdas que tivemos nesses últimos anos, mas sem jamais fazer coro ao fascismo, ao negacionismo e ao discurso de ódio. Esta não será uma tarefa fácil, mas será necessária e exigirá muito de nossa atenção com “o que fazer” e “o como fazer” no âmbito da luta sindical no próximo período.

Sobre esta conjuntura na educação
Na conjuntura educacional vivemos, sem dúvida nenhuma, a pior fase das últimas décadas: o corte de verbas sistemático em diferentes programas de ensino, pesquisa e extensão; a escolha de ter como principais inimigos servidores públicos e, sobretudo, servidores da educação, com campanha sistemática de propagação de noticias falsas e incentivo à perseguição; os ataques e desmonte do Instituto Nacional de Pesquisas e Educacionais Anísio

Teixeira, que cumpre uma função estratégica para educação em âmbito nacional; a manutenção do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), há mais de 5 anos sem reajuste, que deixou a per capita/dia da merenda escolar chegar a pífios 0,36 centavos por aluno. Todos esses elementos juntos conformam um período sombrio e de retrocessos jamais imaginável nas nossas previsões mais pessimistas.

Sabemos da existência do problema e que foi agravado significativamente na pandemia, sabemos que o impacto foi infinitamente maior entre os mais vulneráveis, mas só conheceremos de fato o tamanho do estrago a partir do momento em que os dados do censo junto com outros dados educacionais complementares forem divulgados e analisados. A redução de participação no ENEM em 2021, quebrando uma série histórica de crescimento que vinha desde 2005, é um dos indícios de que o problema é grave. Considerando que aproximadamente 80%¹ da nossa população demanda a escola pública no ensino médio e fundamental e que foi justamente a rede pública a mais afetada neste último período, necessitamos de um enorme esforço para que a escola pública volte a ser o que era e avance de fato na consolidação do direito à educação.

A reforma do ensino médio, apesar de vendida pela imagem da novidade e da flexibilidade, remonta ideias antigas, retrocede quanto à perspectiva de profissionalização docente e restringe significativamente a possibilidade de nossos estudantes, mesmo com um indicativo de ampliação de carga horária escolar. Essa é uma análise compartilhada por inúmeros especialistas da educação, mas que enfrenta enorme resistência do setor privado que atende uma parcela muito pequena da educação, mas possuem muito poder e simpatizam certamente com a proposta apresentada.

Diante deste contexto, entendemos que a luta dos servidores públicos da educação necessita ser uma luta pela ampliação de salários e direitos, pela melhoria de nossas carreiras, pela paridade salarial no serviço público, por melhores condições de trabalho, por espaços de trabalho que desconstruam de forma institucional o machismo, o racismo e o capacitismo ainda tão presentes.

Da mesma forma, precisamos lutar por um projeto de escola pública, gratuita, de qualidade e socialmente referenciada. Uma escola que se abra e acolha os mais pobres, a população preta, a população lgbtqia+, as pessoas com deficiência e toda diversidade presente em nossa população. Uma escola que se constitua como uma alternativa de mobilidade social ao nosso povo, democrática, aberta a ouvir e dialogar com nossos estudantes. Que nossa ideia de excelência de ensino não se referencie nos filtros e na exclusão, mas no reconhecimento de nossos alunos quanto à nossa capacidade de educar os que mais necessitam.

Aos servidores e servidoras progressistas, um projeto de escola pública democrática e popular não pode se colocar de forma secundária ou menor em nossa luta. Essa é uma importante tarefa e agora, mais do que nunca, precisa ser defendida e compreendida para que nossa liberdade de dizer seja restabelecida. Para que sejam desencorajados o monitoramento e perseguição à nossa liberdade, tão essenciais à atividade educacional. Quando vemos, por exemplo, as temáticas de gênero e étnico-raciais serem silenciadas pelo medo, pela mentira e pela desinformação, como ocorreu em inúmeros casos em nossas escolas, é preciso que compreendamos o perigo prático que esse movimento político nos traz. É necessário um enfrentamento duro às ideias que ameaçam a vida dos outros ou que rompam com marcos civilizatórios tão caros conquistados pela humanidade. Não existe possibilidade de nascer uma educação de qualidade com este tipo de ambiente em nossas escolas, por isso a urgência desta pauta.

Marcus Vinícius Cardoso Podestá
Pedagogo – Campus Vitória

¹ A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Continua (Pnad) de 2019, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica (IBGE).

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