31 de maio de 2022
Por: Comunicação


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Discussões aconteceram no 2º Encontro de Mulheres da Base do Sinasefe Ifes. Durante a atividade, foram definidos como encaminhamentos a recomposição do GT de Combate às Opressões do sindicato e o sorteio de 15 representantes para participar do 3º Encontro de Mulheres do SINASEFE

 

Espaço de organização e fortalecimento da atuação política feminina em defesa da democracia, o 2º Encontro de Mulheres da base do Sinasefe Ifes aconteceu nessa sexta, 27, entre 9 e 17 horas, no auditório do sindicato, em Vitória. 

A atividade contou com a participação de servidoras, sindicalizadas e não sindicalizadas, da ativa e aposentadas.

O encontro proporcionou momentos para construção coletiva de modos de resistência à precarização das condições de vida e trabalho, além de estratégias para formar alianças e vencer o fascismo nas eleições presidenciais.

Privatização do ensino público

Na atividade, as participantes debateram o fortalecimento da lógica neoliberal do Estado na administração pública e na condução das políticas educacionais para a privatização do ensino público, após o golpe contra a então presidenta Dilma Rousseff. Medidas adotadas pelos governos Temer e Bolsonaro, como o Teto de Gastos Públicos (EC 95/2016), Reforma Trabalhista, Reforma Previdenciária e a proposta de Reforma Administrativa (PEC 32/2020) apontam para isso.  

As participantes também destacaram a ameaça representada pela recente Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 206/2019, para instituir a cobrança de mensalidade nas universidades públicas. A PEC é de autoria do deputado federal General Peternelli.

A diretora da Coordenação Regional Norte Alini Altoé, servidora do campus São Mateus, e a diretora de Coordenação Jurídica Ana Paula Brasil, servidora do campus Vitória, reafirmaram na mesa de abertura a importância do encontro para debater as pautas das mulheres da base do Sinasefe Ifes.

Estratégias para derrotar o fascismo

Com o tema “As mulheres vão derrotar o fascismo: pela vida de todas as mulheres”, a primeira mesa do encontro abordou a necessidade de elaborar estratégias para somar forças e trazer novas aliadas na luta em defesa dos direitos ameaçados pelo atual desgoverno autoritário, que persegue e extermina jovens negras/os/es, LGBTQIA+, indígenas, entre outros grupos vulnerabilizados. 

A atividade teve como expositoras Ana Paula Rocha, professora de história, coordenadora do Círculo Palmarino e pré-candidata a Deputada Federal pelo Psol e Deborah Sabará, Diretora do Grupo Orgulho Liberdade e Dignidade (GOLD) e da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra).

Para Ana Paula Rocha, enfrentar o fascismo é lutar contra o processo histórico de constituição do Brasil, que explorou pessoas negras, indígenas, a natureza e as mulheres. “Nós mulheres temos nos colocado no lugar de resistência e exposição das contradições desse sistema centralizado no nosso extermínio, com os desmontes que trazem consequências práticas e objetivas sobre o nosso dia a dia”, destacou. 

Ela reforçou as conquistas de acesso de mais mulheres e pessoas negras aos espaços estudantis e de docência e como essa presença perturba a estrutura na qual estão inseridas. Ana Paula também pontuou que o espaço sindical muitas vezes não é acolhedor para as pessoas fora do padrão homem, branco, proprietário e heteronormativo, pela quantidade de assédio, invisibilidade e por não considerar suas questões válidas.

“Nós enquanto mulheres construímos ao longo da nossa trajetória uma série de tecnologias de resistência, desde as experiências dentro das nossas casas, tentando conseguir renda, vários esquemas para conseguir estudar, as experiências de mutirão e a gente não fala e não reivindica essas estratégias. Olhando esse cenário de um governo Bolsonaro que ataca o magistério, a juventude negra e as mulheres, como reverter esse estado de coisas? Uma estratégia é recuperar nossa trajetória de organização comunitária e aprender com as mulheres indígenas e quilombolas a conviver com a natureza e o território”, aponta Ana Paula Rocha.

Deborah Sabará também questionou como convencer a população LGBT, que não acredita mais em política, para ter coragem de votar e mudar a história novamente. Ela  reforçou a necessidade de garantir a permanência das pessoas trans nas unidades de ensino e mencionou o acesso ao banheiro como um dos limitadores para a permanência de pessoas trans nas escolas. 

“Há uma grande necessidade de avançar na educação, capacitação e trabalho que vai depender de muitas mulheres como vocês. A primeira conferência no mundo sobre questões LGBT foi convocada pelo Lula em 2008 e Vitória foi a primeira cidade a ter uma conferência municipal, sendo a segunda Cariacica, quando as duas estavam sob gestões do PT. Espaços como esses são importantes para a população LGBT conhecer seus direitos e vamos precisar costurar essa rede muito bem e usar todas as estratégias para vencer Bolsonaro”, conclui. 

Mulheres em defesa do serviço público

A segunda palestra contou com a exposição da presidenta da Associação dos Docentes da Universidade Federal do Espírito Santo (Adufes), Junia Zaidan, fundadora do Fórum Capixaba de Lutas Sociais e uma das articuladoras do Movimento dos Servidores Capixabas contra a Reforma Administrativa.

Junia abordou as desigualdades de gênero no serviço público e os impactos da reforma administrativa sobre a vida das mulheres. Ela mencionou a naturalização das violências de gênero e a perversidade dos apagamentos das desigualdades sofridas pelas servidoras, a partir do argumento da impessoalidade na seleção, sem considerar a violência estruturante que constitui a formação social e se revela no serviço público. 

“A reforma administrativa recai de modo mais perverso sobre as mulheres e pessoas negras sob a forma de assédio institucional que advém sobre as servidoras e as mulheres que dependem dos serviços públicos. A PEC 32 escancara a dinâmica que opera o Estado burguês na periferia do sistema, para transferência de recursos públicos para iniciativa privada e gestão empresarial dos órgãos públicos, como bases do documento que atinge servidores atuais e não somente futuros, com fim inequívoco de garantir um padrão de acumulação, em crise desde os anos 1970.  É uma reforma autoritária sem consulta e auscultação da sociedade, privatista e fiscalista, sob o pretexto de arrocho e austeridade” reflete Junia Zaidan. 

A pedagoga servidora do campus São Mateus Samanta Lopes Maciel, integrante da comissão organizadora e palestrante da segunda mesa do encontro, discutiu o processo de remodelação do papel social do Estado como provedor de direitos, passando a ser prestador de serviços.

“A principal justificativa da reforma administrativa é tornar a máquina pública mais ágil, leve, menos obsoleta, termos que seguem a lógica da concorrência da iniciativa privada e com isso a privatização nos diversos segmentos da atuação estatal. Um dos pontos previstos na Reforma Administrativa é a avaliação de desempenho mais efetiva e eficaz, que significa mais possibilidades de demitir, torna as mulheres vulneráveis ao machismo dos chefes homens e pode constranger ainda mais nos casos de denúncias por assédio nos ambientes de trabalho”, reflete Samanta Lopes Maciel.

Maria da Penha Xavier, integrante do conselho fiscal do Sinasefe Ifes e servidora do campus Vitória  também participou como expositora e relatou sua trajetória de quase 50 anos no Ifes, onde participou da administração, conselho fiscal e foi congressista, presenciou casos de assédio e se decepcionou com espaços que afastavam as mulheres. 

“É uma luta diária de se colocar no espaço que te pertence. Desde 2002, estive em cargo de chefia, como coordenadora de registro acadêmico e uma das coisas que eu ouvi foi para não ser uma contestadora, como outra colega que incomodava por ser assim. Eu acho que ser da instituição é participar de tudo e cada vez mais vocês que conseguem ser mães,  servidoras, falam por muitas que não tem coragem”, comentou Maria da Penha. Ela apontou que existem apenas seis mulheres entre todos os diretores dos 21 campi do Ifes no estado e questionou a aplicação da paridade, principalmente nos cargos de confiança. 

Encaminhamentos e indicação de representantes para o Encontro Nacional de Mulheres

Diante das demandas apresentadas durante o 2º Encontro de Mulheres da base do Sinasefe Ifes, foi definido o encaminhamento da recomposição do GT de Combate às Opressões do sindicato com o objetivo de utilizar o espaço para acolhimento de casos de assédio sexual e machismo, como um mecanismo de luta ativa e construção da discussão dessas pautas.

Entre as participantes interessadas em comparecer ao 3º Encontro Nacional de Mulheres da base do Sinasefe, previsto para 18 a 21 de agosto em Fortaleza, a comissão organizadora indicou, por meio de sorteio, 15 representantes para a atividade. Foram sorteadas: Celina Busato Soprani, Maria da Penha Xavier, Marilúcia dos Santos, Maria Angela Dutra Machado, Rogéria Belchior, Ana Paula Brasil, Denise Lemos, Wania Colodetti, Alini Altoé, Naila Gomes, Cynthia Laurindo, Poliane Almeida, Maria do Carmo Nascimento, Maria Teresa Campos e Lúcia Helena Pazzini de Souza. Em ordem de suplência, também estão Izabel Simon, Maura Bomfim, Samanta Lopes Maciel, Márcia de Oliveira e Paula Taquete. 

Para Maria da Penha Xavier, que esteve presente no primeiro e segundo Encontro de mulheres da Base do Sinasefe Ifes, a programação superou as expectativas. “Espero que possamos resolver esse problema do fascismo e que isso se torne realidade nas urnas agora”, completou.

Alini Altoé destacou ainda a importância de trazer as mulheres para o espaço físico do sindicato, para que elas possam vivenciar esse espaço presencialmente e construir de outra forma, questionando a estrutura masculinizada e opressiva em alguns momentos, para mostrar que existem outras formas de fazer militância e pautar a luta sindical.

“Quando conseguimos trazer as mulheres para conversar, percebemos as falas do dia a dia dos campi, o que atravessa cada mulher de forma diferente, de acordo com a idade, o território que ela está, o município em que trabalha. E assim podemos nos aproximar e pensar o que nos diferencia, mas também as  lutas que nos unem. Isso é importante para construir o movimento sindical e derrotar o fascismo, derrubar Bolsonaro nas próximas eleições e mostrar que as mulheres têm muita força e sabedoria para seguir a luta no dia a dia”.

Primeiro encontro

O primeiro Encontro de Mulheres da base do Sinasefe Ifes aconteceu em 2019, e foi um momento histórico, que alertou para os casos de violência, desigualdades que atingem as mulheres no mercado de trabalho e na participação efetiva das sindicalizadas. Clique aqui e saiba mais sobre o primeiro encontro.

Confira as fotos da atividade:

 

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