8 de maio de 2020
Por: Comunicação


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Sindicato vem recebendo o relato de diversas/os professoras/es apreensivas/os com os prejuízos que a manutenção do exame pode causar às/aos estudantes do Ifes e de escolas de todo o Brasil

O Sinasefe Seção Ifes defende que a o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) seja adiado em decorrência da pandemia da Covid-19 (coronavírus) que suspendeu as aulas em todo o país e desencadeou uma quarentena e distanciamento social para a contenção da propagação da doença. O adiamento é necessário para garantir que todas/os possam concorrer em condições semelhantes, sem que haja privilégios para alunos mais ricos.

Para Ivan Almeida Rozario Júnior, professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira do Ifes-Campus Piúma, o adiamento do Enem, em tempos de crise sanitária, é a mais prudente e responsável decisão que o Governo Federal deveria tomar. Ele lembra que, por ser o maior exame educacional do país e um dos principais critérios de seleção para ingresso nas universidades brasileiras, o Enem para muitos estudantes é o único mecanismo de inserção social no Ensino Superior, em especial para aqueles que não desfrutam de outros recursos senão as aulas presenciais nas escolas públicas. Dessa forma, o adiamento significa garantir a democratização do Ensino Superior para todas e todos as/os estudantes.

“Muitos desses estudantes vivem em situações de extrema vulnerabilidade social, não conseguindo sequer cumprir as orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e as do Ministério da Saúde, convivendo com os seus familiares em residências pouco espaçosas e arejadas, aumentando o risco de contágio e/ou proliferação da Covid-19”, disse.

O adiamento do Enem também é defendido por Patrícia Andrade, professora de sociologia do Ifes-Campus Montanha. Ela salientou que o país passa por uma calamidade pública e que a situação, de acordo com os números divulgados diariamente, tende a piorar. “A suspensão das aulas, o isolamento social e a quarentena foram medidas tomadas para garantir vidas e não para precarizar ainda mais a situação das/os estudantes, em especial os que se enquadram nas políticas afirmativas de inclusão”.

A professora explica que os estudantes de escolas públicas são a maioria do público que faz a prova da Enem e que, ao manter o calendário, o Ministério da Educação (MEC) desconsidera a diversidade das/os estudantes e a realidade desigual do Brasil, demonstrando ter compromisso único e exclusivo com uma educação entendida como mercadoria, atendendo aos interesses de grupos privados de educação (escolas e faculdades) que se beneficiam com a manutenção das provas.

EaD

Patrícia Andrade acrescenta que, mesmo nas escolas públicas em que foi implantada a Educação à Distância (EaD), a continuidade das aulas nesta modalidade não garante que alunas e alunos consigam estudar para a obtenção de rendimento adequado. Para ela, essa preocupação também precisa ser observada pelo Ifes, uma vez que o Instituto quer impor a realização de atividades letivas não presenciais, mesmo diante da realidade de que cerca de 50% das/dos suas/seus estudantes ingressou por meio de medidas afirmativas, estando submetidas/os a toda ordem de dificuldades para estudar em casa.

“Não é em todos os lares que as/os alunas/os têm um computador exclusivo para sua utilização, acesso de qualidade à internet. Ao invés de fazer pressão pela implementação da EaD, o Ifes deveria ser um sujeito político para pressionar contra a manutenção do Enem em novembro, protegendo suas/seus próprias/os estudantes e os resultados do Instituto”, defendeu Patrícia.

O professor Ivan Almeida Rozario Júnior também lembra que há fatores que impactam significativamente no processo de aprendizagem das/os estudantes oriundos de classes sociais menos favorecidas em um momento em que os discentes precisariam estudar em casa para a realização do exame. Alunas/os nesta situação não conseguem dispor de dedicação e concentração para as tarefas escolares, questão que também precisa ser levada em consideração pelo próprio Ifes que tenta implementar atividades não presenciais letivas neste cenário.

“Grande parte das/os estudantes do Ifes, hoje,  é oriunda de classes sociais economicamente menos favorecidas, o que dificulta o pleno acesso às tecnologias digitais. E, quando as tem, precisam dividi-las com os demais membros da família (pai, mãe, irmãos). O MEC e as instituições de ensino devem considerar todas essas peculiaridades, afinal, uma eficiente política pública é aquela capaz de garantir todos os direitos constituídos às/aos cidadãs/os. É necessário uma escuta responsável e mais humanizada dos gestores educacionais a fim de não tornar as suas práticas contraditórias às suas palavras”, disse Ivan.

Ivan lembra, ainda, que a campanha publicitária do MEC, defendendo a manutenção do Enem sem adiamento, destoa da realidade atual do Brasil. “Ao apresentar um cenário limpo, colorido, organizado e alegre, com a presença de adolescentes empolgados e felizes com a iminência de um exame que os colocará na universidade, a cena contradiz o sentimento de inúmeros cidadãos brasileiros (crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos) que lutam para combater e se proteger de um vírus mortal. A negação de uma crise sanitária, a coisificação da pessoa humana e o descaso com o povo brasileiro são encobertos por ‘papéis de parede’, por uma maquiagem, construindo um discurso falacioso, elitista e excludente”.

A professora Patrícia Andrade concorda com o colega de docência e lembra que esses quartos bonitos e cheios de tecnologia não são realidade para a maioria das/os brasileiras/os e, por consequência, para as/os estudantes. Além disso, destaca que em muitas residências há um grande número de moradores, com muitas outras preocupações em um momento de insegurança sanitária, mas não apenas, pois há incertezas econômicas que obrigam as famílias a se voltarem para conseguir obter renda que garanta a compra de alimentos e o cuidado com os membros mais vulneráveis à Covid-19 em um momento em que o isolamento é primordial para proteger a vida das pessoas.

Avaliação

O Sinasefe Seção Ifes ressalta, ainda, que um dos principais objetivos do Enem é avaliar a qualidade do ensino médio. Considerando que em 2020 as aulas foram só até março, não há o que ser avaliado. Além disso, a aplicação do exame tem custos elevados, e o investimento não se justifica em um cenário como o que é vivido hoje no Brasil.

CONFIRA AS PUBLICAÇÕES DO SINASEFE-IFES COM POSICIONAMENTO SOBRE A EAD NO INSTITUTO (CLIQUE PARA ACESSAR):

Sinasefe Ifes protocola ofício solicitando a suspensão do calendário acadêmico

Docentes do Proeja (Vitória) rejeitam EaD durante a pandemia da COVID-19

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