9 de abril de 2020
Por: Comunicação


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Processo precisa ser coletivo e o debate qualificado, considerando não apenas o aparato tecnológico necessário, mas as implicações da mediação tecnológica na aprendizagem e na prática da docência

O Ifes anunciou a adoção de aulas não presenciais para os cursos técnicos e de graduação enquanto durar a pandemia do coronavírus (COVID-19). O Sinasefe Seção Ifes chama a atenção para a necessidade de realizar esse debate de maneira conceitual, e não apenas tecnológica, como vem sendo feito. O Instituto tem considerado o acesso às Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs), ignorando as complexidades da modalidade de Educação à Distância (EaD) que não pode ser reduzida apenas à mediação por meio de dispositivos tecnológicos entre educador/a e estudante.

É preciso inserir as representações de docentes e de estudantes, assim como pais de discentes, diretamente na construção desse planejamento. O Sinasefe Seção Ifes defende que o calendário acadêmico seja suspenso e repensado após o retorno da quarentena, compreendendo que professoras/es, técnicas/os-administrativas/os e discentes passam por um momento de excepcionalidade e não estão em casa sem afazeres, em especial considerando a necessidade de cuidados consigo e com as outras pessoas neste momento. O Sinasefe Nacional e o Andes também têm esse posicionamento em favor da suspensão do calendário acadêmico e contra a implantação da EaD durante a pandemia.

A comunidade do Ifes tem que ser ouvida e, o mais importante, precisa participar da construção das políticas da Instituição para a EaD. O processo tem que ser coletivo, uma vez que todas/os serão diretamente impactadas/os pelas medidas, seja na qualidade de ensino e na reposição de aulas, seja no pagamento de carga horária pelas/os docentes.

O Sinasefe Seção Ifes defende que haja serenidade para o planejamento de alternativas capazes de amenizar os impactos da suspensão das aulas nesse momento de pandemia mundial e de excepcionalidade. O Ifes não deve ser precipitado em suas ações no intuito de dar uma satisfação à comunidade acadêmica e à sociedade capixaba. Medidas intempestivas do Instituto não contribuem para que sua comunidade atravesse esse momento com mais tranquilidade. As ações da Instituição deveriam apontar no sentido contrário do que vem sendo feito. Sugerir que alunos sem acesso à internet se desloquem até seus campi, rompendo a quarentena, é um dos exemplos do que o Sindicato considera uma irresponsabilidade do Ifes com o momento que o Brasil está vivendo.

O Ifes precisa ter a coragem que a situação de emergência exige e qualquer medida deve ter como princípio a defesa da saúde e da vida de toda a população, e também do que o Instituto tem de melhor, que é a educação pública, gratuita e de qualidade.

Qualificar o debate

As pesquisas realizadas pela Reitoria, que ouviram discentes e servidoras/es, foram direcionadas para informações relacionadas à acessibilidade e às TICs. As discussões de caráter conceitual, como o impacto dessa mediação tecnológica nas práticas pedagógicas e na aprendizagem, foram ignoradas pelo Ifes. É urgente um debate que considere os atravessamentos das tecnologias na interação social. A EaD não se restringe a usar meios não presencias para aulas, mas tem implicações complexas na forma como se aprende e como se exerce a docência.

Uma pergunta feita aos alunos na pesquisa realizada pelo Ifes evidencia a necessidade de uma urgente qualificação do debate acerca da EaD na Instituição. Estudantes foram questionados se eram favoráveis à substituição de aulas presenciais por aula à distância. O Sinasefe Seção Ifes defende que a política de EaD não pode ser discutida a partir de uma pesquisa de opinião, já que as/os estudantes não têm acúmulos sobre os debates envolvendo esta modalidade de ensino. Para agravar ainda mais a situação, a Reitoria disponibilizou em seu site o resultado da pesquisa e enfatizou que mais de 50% dos alunos são favoráveis à substituição, numa atitude panfletária e de desqualificação do debate.

O diretor do Sinasefe Seção Ifes, Thalismar Matias Gonçalves, que é docente no campus Viana, explica que a política de EaD no Brasil foi pensada como possibilidade de levar a formação, sobretudo para educadoras/es, a lugares mais distantes dos grandes centros e das universidades.

“Por outro lado, por pressão de grandes grupos empresariais da educação privada, a legislação que regulamenta o EaD foi se flexibilizando e permitindo a abertura desenfreada de cursos online de graduação e pós-graduação. Isso possibilitou a expansão do número de matrículas e de estudantes, mas tornou a formação cada vez mais precarizada, sobretudo para as/os jovens mais pobres que acessam esses cursos por serem mais baratos”, disse.

Thalismar lembra que a inserção das Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs) na Educação Básica é um caminho sem volta. “A questão é como as TICs serão ferramentas para contribuir na superação dos desafios da educação brasileira, especialmente, no que se refere a ofertar uma educação pública, gratuita e de qualidade para todas as crianças e jovens desse país. As TICs redefinirão o papel do educador e do estudante nos processos educativos”.

Educação industrializada

Reflexões mais críticas à EaD apontam, ainda de acordo com Thalismar, que o docente pode ser reduzido a produtor de materiais padronizados de conteúdo, num modelo de educação industrializada que reforça ainda mais a perspectiva que vê os estudantes como um bloco homogêneo. Com essa lógica, estudantes serão reduzidos ao papel de consumidores de produtos/pacotes de informações por temas. O Sindicato considera que esta seja uma perspectiva de mercado, uma vez que o modelo promove a redução dos custos com professores.

As TICs devem ser vistas como ferramentas para se alcançar a qualidade da educação, não como um fim, uma vez que processos educativos necessitam de diálogo presencial, para uma interação orgânica possível apenas em sala de aula.

“As aulas presenciais, seja com quadro e giz ou com a utilização de ferramentas tecnológicas, continuam essenciais para superarmos os desafios da educação brasileira e para a defesa de uma educação pública, gratuita e de qualidade, o que muito nos orgulha no Ifes”, ressaltou o docente do campus Viana.

O Sinasefe Seção Ifes reforça o seu papel na defesa da educação pública gratuita e de qualidade, assim como a sua bandeira de defesa das categorias dos docentes e das/os técnicas/os-administrativas/os de quaisquer ações que precarizem seu trabalho.

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